Já no verso de abertura — “Hoje, andando na rua” — o leitor fica avisado: este é um livro de quem gosta de percorrer e colecionar espaços, aberto aos ritmos do presente. De fato,
Vida sortida
, segundo livro de Bernardo Ceccantini, que estreou na poesia com
Na quina das paredes
(2017), obra semifinalista do Prêmio Oceanos, é todo ele atravessado por uma espécie de vontade andarilha.
Se muitos poemas extraem sua matéria de lugares públicos — das ruas, praças, bares e balcões do centro de São Paulo —, há também fôlego para a exploração sensível de outros recessos — os quartos, as casas, o interior dos carros, as viagens dentro e fora da família, o refeitório e o almoxarifado do trabalho, por exemplo. Dessa mistura de espaços e atmosferas emerge um lirismo sagaz e zombeteiro, que contamina os amores, os êxtases, as perplexidades, as interrogações, a melancolia, a indignação, a revolta e até mesmo os momentos de graça ou loucura, conferindo a estas páginas um alto poder de encantamento e de insubordinação. Aqui e ali o poeta acena a Manuel Bandeira, Antonioni, Frank O’Hara, e também a anônimos passantes, frequentadores das ruas, pois como ele mesmo declara, “Eu sou só eu e somos outros/ e nossa memória anda sempre pra frente/ como uma bicicleta curiosa”. É essa curiosidade errante, capaz de conjugar os tempos fora da ordem cronológica, que leva o poeta a vagar pela cidade com sua caixa de palavras, refazendo no século XXI a pergunta que a poesia se coloca desde sempre: onde e como habitar o mundo?
- Editora: EDITORA 34
- Autores: AUTOR(A): CECCANTINI, BERNARDO
- ISBN: 9786555252750